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Quando um carro vira inspiração

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Muito se falou sobre o lançamento do Falcon Heavy no começo de fevereiro, e nos dias seguintes milhares de opiniões foram emitidas sobre o bilionário excêntrico que resolveu mandar um carro pro espaço porque ele pode. A quantidade de pessoas achando que isso era um capricho de um bilionário, playboy, gênio e filantropo e um grande desperdício de dinheiro não foi pouca.

Mas quando paramos pra pensar no simbolismo de uma ação dessas, a questão deixa de ser os milhões gastos pra colocar um carro em órbita e passa a ser o quanto isso faz a percepção das pessoas a respeito do que é ciência, e de como ela pode ser usada para fins diferentes, mudar radicalmente.

Nós, brasileiros, temos uma carência enorme nesse assunto, já que o mais próximo que temos de um programa espacial está nas mãos da Agência Espacial Brasileira, um órgão estatal que não consegue colocar nada funcional em órbita. Lembrem-se de que o Cubesat que subiu com a ajuda da China, e custou módicos R$ 125 mi, não funciona porque esqueceram de escrever o software. Temos também como exemplo o fim de uma parceria com a Ucrânia, que fez com que o país perdesse cerca de 500 milhões de reais, que foi basicamente o que foi gasto com R&D para o Falcon Heavy. Isso porque eu nem vou começar a falar da Base de Alcântara. Com isso, pensar em gastar dinheiro com o espaço passa a ser nada mais do que gasto, desperdício, “eu não pago imposto pra isso!”

O truque, então, é pensar além do fato (o Tony Stark real mandou um carro pro espaço) e começar a olhar para o efeito (temos um carro made on Earth by humans em órbita heliocêntrica). Quando deixamos de olhar para o que aconteceu e começamos a olhar para as perguntas que começaram a ser feitas depois e para o deslumbramento que isso causou nas pessoas, a coisa toda fica muito clara.

Perguntas como “Como foi possível soltar dois foguetes em pleno voo e fazer os dois pousarem praticamente ao mesmo tempo?”, “Como se consegue calcular a trajetória para que o segundo estágio entre em órbita?”, e, claro, uma das perguntas que ninguém pensou que seria possível fazer por muito tempo, “Por que o central core não conseguiu pousar?”, não são feitas por todas as pessoas, mas isso não significa que o simbolismo é pequeno. O impacto de um acontecimento desses não é algo que seja facilmente esquecido; é só pensarmos no pouso na Lua, em 1969.

Então o Elon Musk, o bilionário excêntrico, resolveu responder à pergunta que foi feita nos dias seguintes ao lançamento do Falcon Heavy:

(Tecla SAP: “Por que o Falcon Heavy e o Starman? A vida não pode ser apenas resolver um problema triste atrás de outro. É preciso haver coisas que inspiram, que fazem você ser grato por acordar de manhã e fazer parte da humanidade. Por isso que fizemos isso. Fizemos para você.”)

Daí temos a resposta a uma das perguntas feitas: por que um carro? Porque isso inspira, e é bonito. Se dermos uma volta pelo YouTube conseguimos encontrar um monte de vídeos de famílias inteiras que foram assistir ao lançamento. Podemos encontrar crianças animadas porque o foguete subiu e depois pousou, yay!. Ou pessoas emocionadas por poderem presenciar aquilo. O próprio fato de o assunto ter tido uma repercussão enorme nos dias seguintes já explica por que diabos tem um carro no espaço.

Em outras palavras, ações como essa são capazes de lembrar a nós, hominídeos super evoluídos (não estou falando de comentaristas do G1), que nós somos capazes de fazer muitas coisas se olharmos além dos fatos puros e começarmos a pensar no que sonhamos fazer.

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